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Patrimônio histórico como ativo imobiliário: o futuro de Salvador passa pelo seu passado

Durante séculos, o Centro de Salvador concentrou residências, negócios, serviços e decisões que ajudaram a construir a história do Brasil. Primeira capital do país, fundada em 1549, a cidade preserva um conjunto arquitetônico formado por edifícios de diferentes períodos, especialmente dos séculos XVII ao XIX. Reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco em 1985, esse território guarda um valor cultural indiscutível. Mas começa também a ser percebido sob outra perspectiva: a de um ativo imobiliário capaz de receber novos usos, atrair investimentos e participar novamente da dinâmica cotidiana da cidade.
A partir da segunda metade do século XX, o deslocamento de atividades econômicas e administrativas para outras regiões de Salvador contribuiu para o esvaziamento do Centro e para a deterioração de parte de seus imóveis. Diferentes programas públicos buscaram reverter esse processo, mas a experiência mostrou que recuperar fachadas ou restaurar monumentos isoladamente não é suficiente. Um centro urbano se mantém vivo quando reúne moradores, trabalhadores, estudantes, visitantes, comércio, serviços, cultura e lazer em diferentes momentos do dia. É nesse ponto que a reocupação imobiliária ganha importância estratégica.
O retrofit surge como uma das respostas possíveis a esse desafio. Mais amplo do que uma reforma convencional, ele adapta construções antigas às exigências atuais de segurança, acessibilidade, conforto, eficiência energética e tecnologia, preservando os elementos que lhes conferem identidade. Em vez de tratar o edifício histórico como um obstáculo à inovação, o retrofit transforma sua arquitetura, sua localização e sua memória em atributos de diferenciação. Em um mercado cada vez mais interessado em experiências, pertencimento e autenticidade, morar, trabalhar ou se hospedar em um imóvel com história pode representar um grande valor.
Salvador já reúne exemplos capazes de demonstrar esse potencial. O retrofit do antigo prédio de A Tarde, na Praça Castro Alves, para receber o Hotel Fasano, e também o Hotel Fera Palace, ajudaram a reposicionar a Rua Chile no mapa da hotelaria de alto padrão. Agora, avança a transformação do antigo Palácio dos Esportes, também na Rua Chile, em um residencial boutique. A proposta de converter um edifício conhecido por gerações de soteropolitanos em moradia sinaliza uma mudança relevante: o patrimônio volta a fazer parte da vida doméstica da cidade.
Outro projeto de grande repercussão prevê a transformação do Palácio Rio Branco em um hotel de Ao atribuir um novo uso a um dos edifícios mais simbólicos da Praça Municipal, a iniciativa pode estimular uma cadeia de investimentos em gastronomia, cultura, comércio e serviços. Mais do que recuperar um imóvel, projetos dessa dimensão podem influenciar a percepção de valor de todo o entorno.
Esse movimento encontra apoio no programa Renova Centro, regulamentado em 2024. A iniciativa oferece benefícios fiscais para incentivar empreendimentos, atividades econômicas e moradias na região, reduzindo parte dos custos e riscos envolvidos na recuperação de imóveis antigos. Ao estimular a presença residencial e o empreendedorismo, o programa reconhece um ponto essencial: preservar o patrimônio exige criar condições econômicas para que os edifícios sejam ocupados, mantidos e incorporados à vida produtiva da cidade.
Para o mercado imobiliário baiano, o patrimônio representa uma fronteira de oportunidades. Salvador possui imóveis singulares, localização central, infraestrutura instalada, paisagens privilegiadas e uma identidade reconhecida mundialmente. Converter esse acervo em hotéis, residências, escritórios, equipamentos culturais e empreendimentos pode gerar valor econômico enquanto preserva a memória urbana.
A Ademi-BA incentiva e segue de mãos dadas com iniciativas públicas e privadas que vão ao encontro de um Centro Histórico vivo. Afinal, cidades inteligentes não são apenas aquelas que constroem o novo. São também as que conseguem reconhecer, no que já existe, matéria-prima para o futuro.




