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23 maio 2026

Os impactos da redução da jornada no mercado imobiliário

A recente discussão sobre a redução da jornada de trabalho reacende um antigo debate entre as empresas do setor imobiliário: como ganhar produtividade. Antes de a sociedade escolher se deseja uma redução da carga horária, é importante elucidar os benefícios e as consequências de uma decisão que traz impactos sociais e econômicos.

Inicialmente, vale ressaltar que o Brasil ocupa uma baixa posição no ranking global de produtividade do trabalho, especialmente na construção civil, onde os índices vêm piorando ao longo dos anos. É consenso entre as empresas do setor que o operário de hoje não produz o mesmo que antigamente. Esse quadro se intensifica no contexto atual de pleno emprego da economia (a taxa de desemprego atingiu 6,1% em março) e dificuldade na contratação de mão de obra qualificada.

Diante desse cenário, torna-se essencial buscar soluções estruturantes que elevem a produtividade das empresas do setor. À luz da teoria neoclássica, especificamente a função de produção de Cobb-Douglas, o nível de produção resulta da combinação dos fatores capital (equipamentos/tecnologia) e trabalho. Ganhos de produtividade decorrem da capacidade de produzir mais com a mesma quantidade de insumos ou manter o nível de produção utilizando menos recursos.

Nesse contexto, a eventual redução da jornada de trabalho implica, em um primeiro momento, diminuição do volume de horas trabalhadas, mantendo-se os níveis salariais. O efeito imediato tende a ser a redução da produção. Como as obras não podem sofrer atrasos, os construtores precisarão avaliar sobre a taxa marginal de substituição entre capital e trabalho para restabelecer o equilibro. As opções passam pela contratação de mão de obra adicional — com possíveis efeitos de rendimentos decrescentes — ou pela intensificação do uso de capital, via adoção de tecnologias e novos métodos construtivos. Ambos, inicialmente, tendem a encarecer o valor do imóvel, gerando reflexos inflacionários.

A construção civil, diferentemente de setores intensivos apenas em mão de obra, como o setor de serviços, possui uma maior capacidade para testar a combinação desses fatores produtivos. O canteiro de obras é um prato cheio para inovação, principalmente para os casos baseados em processos artesanais, onde ainda se assenta tijolo sobre tijolo.

Uma alternativa que o setor precisa considerar, consiste na substituição do trabalho artesanal para uma lógica de montagem industrializada, permitindo encurtamento de cronograma, redução de despesas indiretas (DI), menor exposição a imprevistos, redução de retrabalho e de geração de resíduos, além de maior precisão orçamentária.

Não podemos desconsiderar que, diferentemente dos países desenvolvidos, o Brasil ainda enfrenta diversos gargalos estruturais. Nossas reformas deveriam focar em desatar alguns desses nós, priorizando medidas como a redução do déficit habitacional, a expansão da infraestrutura urbana (oferta de água, esgotamento sanitário e energia) e o desenvolvimento de cidades mais seguras, limpas e sustentáveis.

Países desenvolvidos conseguem sustentar jornadas menores porque já fizeram o dever de casa, tornaram-se mais produtivos e harmonizaram as necessidades sociais e econômicas. A discussão sobre trabalhar menos deveria caminhar em paralelo ao nosso nível de maturidade produtiva. Será que já estamos preparados? Do contrário, a implementação da medida poderá ser precipitada e trazer impactos no acesso à moradia.

Diante desse contexto, a ADEMI-BA defende a realização de um debate profundo em torno da redução da jornada de trabalho, para que seus efeitos sejam compreendidos. A entidade entende que um ambiente colaborativo promove insights para enfrentar desafios decorrentes de mudanças regulatórias. Adicionalmente, busca apoiar o associado em momentos de incertezas para fortalecer o mercado imobiliário da Bahia.

Pedro Mendonça é economista, engenheiro civil e diretor de marketing da ADEMI-BA.

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